quarta-feira, 3 de março de 2010

A Copa de um mundo

Desde 9 de julho de 2006, quando a Copa da Alemanha acabou, muito foi falado sobre o próximo Mundial. Críticas técnicas ou preconceito mascarado de precaução? Talvez os dois, romanticamente pensando. Mas é inevitável não falar em preconceitos ao se falar de África.
Os sul-africanos, sobretudo os negros, vítimas históricas, inclusive em seu próprio país, os "Apartheideados", conseguiram a honra que poucas nações receberam, são sede de Copa do Mundo. Mas, é muito hipócrita não achar que não há pés atrás em relação ao evento inédito no continente. Mais hipócrita seria se não encontrássemos motivos para tal. Por mais que seja o mais desenvolvido da África negra, a África do Sul é um país de Terceiro Mundo, e as disparidades infraestruturais são gritantes em relação à Alemanha, sede da última Copa, que pode ter sido um fracasso como espetáculo - os destaques ficaram do meio pra trás -, mas foi considerada exemplo de organização e estrutura. Nada além do esperado pra maior potência europeia.
E, passados 6 anos desde a escolha, hoje os problemas são visíveis. O Soccer City, palco principal da competição, ainda não está pronto, outros estadios, idem. Pra nós, brasileiros inclusive, sedes da próxima edição, a África do Sul não vai conseguir repetir o feito dos europeus, muito menos o dos asiáticos em 2002. Mas, pra eles, que esperaram uma vida pra poder dizer que vivem em uma sede de Copa do Mundo, isso é o de menos. Mesmo com dificuldades de conseguir ingressos, nada vai impedir que esse povo se liberte, pelo menos por 30 dias, das desoladoras imagens que foram construídas sobre eles. Não precisam de ingressos, não precisam de cadeiras cativas, pois os africanos vão assistir de camarote o maior momento cosmopolita dessa nação, desse continente, dessa gente. Nas ruas, nas esquinas, nas casas simples, a Copa é de todos os africanos, em qualquer lugar.
Faltam 100 dias pro início do Mundial. Daqui até o dia 11 de junho, quando os Bafana Bafana entrarão em campo contra os mexicanos, muito ainda precisa ser feito, o país ainda é um canteiro de obras. Porém, quem liga pra isso além dos dirigentes da Fifa? Os donos da casa já esperaram tanto, e hoje está tão perto, tão real. Tanto quanto Mandela encerrando o Apartheid, o pontapé inicial desse Mundial vai ser uma libertação. Libertação emocional, com a explosão dos gritos e das vuvuzelas; libertação perante o mundo e perante os próprios africanos, que mostraram que são igualmente capazes de cumprir um dever tão árduo. Igualdade. Certa superioridade, eu diria, já que, durante o mês da Copa, os olhos do mundo se voltarão para um lugar onde muitas vezes ninguém foi olhado. A realidade vai continuar dura nos outros países, até mesmo na própria África do Sul, ao final da Copa. Que seja um sonho, então! Os africanos, apesar de tudo, não perderam o dom de sonhar. Daqui a 100 dias, vamos redescobrir o mundo, vamos descobrir um mundo, que vai aparecer, muito merecidamente, nas páginas belas da história.



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