quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fecha a conta

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010. Um ano a menos nas nossas vidas, um ano a mais na nossa história. Aliás, foi o início de uma nova era. O segundo dígito mudou, agora o século começou a andar sua segunda casa. E como ele anda cada vez mais rápido!
Um ano que começou diferente. Sem festa. Com luto. Angra dos Reis, um paraíso, banquete de felicidade, um cenário lindo que sumiu sob tanta lama, sob tanta destruição. Mortes, choro, todo o preto que ofuscou as luzes que anunciavam o novo ano. Pouco tempo depois, mais perdas. O Haiti não precisava de mais um caos. O lado menos ruim foi ter a certeza de saber que anjos, como D. Zilda, voltaram ao céu, para olhar por todos nós. Aliás, em 2010 a natureza resolveu se revoltar, talvez se vingar de uma raça pérfida, que nada fez além de machucá-la. Choveu muito no Sul, choveu demais no Nordeste. O Rio de Janeiro parou, como não parava há décadas. São Paulo idem. E Belém? Ah, aqui isso de chover mais ou menos nunca importou mesmo.
Alegria, por favor? Carnaval. Confetes, serpentinas e Rebolations. Foi mais um hit, deles nunca fugimos. Piscamos e, plim, lá estava mais uma música em todas as rádios, mais nomes e fotos para as garotas colarem nos seus quartos e rabiscarem em seus diários. Não podemos negar que rolou um leve ecletismo, as novidades oscilaram entre o sertanejo de prédio e o pop feliz. Sim, POP. Foi um tal de calça colorida aqui, refrões melosos ali, franjas e histeria acolá, que fica difícil de dizer qual foi a maior modinha desse ano, dessa juventude que nunca ouviu tanta música em tão pouco tempo. Nas rádios, nos IPods, mp3, internet... A sociedade dos chips, das câmeras e redes. Engraçado, nós chamamos de redes sociais aquelas que unem pessoas por uma tela.
Acredito que não sou o único aqui que possui perfil no Facebook, mesmo sem usá-lo com freqüência. É apenas mais uma ferramenta que conseguiu deixar o Orkut, a febre de (apenas) 3 anos atrás, no chinelo. Tuitar virou verbo da nossa língua, apenas mais um dos verbos e verbetes, que andaram palavreando por aí, no mundo mágico dos blogs. Como as pessoas escreveram! Muitos talentos revelados, polêmicas iniciadas, nada que a Grande Rede já não nos ofereça há anos-luz. Foi aí (ou aqui) que avançamos em 2010. Lemos um papel que recarrega, traz Wi-Fi e não mofa. Os celulares servem cada dia menos para falar. A evolução da técnica.
Porém, não há técnica imune a erros humanos. Escavações nos deram o pré-sal, a maior futura riqueza deste país. Escavações falharam, e o mundo inteiro voltou os olhos ao Atacama. Trinta e três vidas, setenta dias, uma mina, uma esperança. Uma grande idéia que funcionou, uma necessidade que voltou à tona: segurança. Sequestros, assaltos, tiros, medo. Até quando o brasileiro continuará torcendo para voltar pra casa, e só? A resposta ainda não foi dada, mas um ensaio muito bem feito nos trouxe de volta o crédito que a polícia vive perdendo conosco. Na Penha, no Alemão, no Rio e em todo o país, um voto de confiança para o Estado. A prova de que ele ainda não faliu por completo. Por isso nós torcemos todos juntos.
Torcemos e choramos juntos. A África não nos trouxe as melhores lembranças. Nos fez enxergá-los como nunca, é verdade. O primeiro continente sediou sua primeira Copa do Mundo, sem dever nada a país europeu nenhum. A festa da mãe que recebe seus filhos de volta pra casa, ao som de insuportáveis e históricas vuvuzelas, com direito a muitas zebras. A campeã tropeçou na macarronada, e um novo nome foi escrito no pé da Taça. Olé! E no manto canarinho, mais uma mancha alaranjada. Por aqui, nada de óbvio. A não ser um peixe, que fez dos gramados, de norte a sul, o seu mar. Nadou soberano, abocanhou tudo. Porém, o gás acabou nas praias santistas. As faíscas não. O alvinegro praiano deu lugar a um tricolor, as Laranjeiras consagraram um argentino como o melhor do Brasil, bordando mais uma estrela no peito e mostraram que o futebol carioca não foi campeão brasileiro em 2009 por acidente. E por falar em campeões brasileiros... Mais uma polêmica. Tudo mudou, e a história passou a ter um novo começo. Assunto para muita discussão. O futebol paraense, coitado, nem merece ser citado, tamanho fiasco – sem exceções. A Seleção se renovou, o Mano chegou, e a Libertadores o Corinthians não ganhou. De novo. O futebol prega peças. Pra terminar o ano, os gaúchos avermelharam o Brasil inteiro de vergonha.
Mas será que pode haver vergonha maior do que ver o deputado federal que mais votos recebeu ter sua alfabetização testada... Com uma prova digna de analfabetos? Essas eleições! E ainda teve gente que achou sem graça. Quer piada maior? Não foi engraçado. Nada foi nesse pleito, e isso não foi necessariamente bom. Sem sal, os candidatos simplesmente não debatiam. Queriam aparecer. E quem irá dizer que as mulheres não foram protagonistas em 2010? A grande promessa que veio do Acre e abalou as estruturas tão enfadonhas da nossa política. Sem falar da maior vitoriosa destas eleições, a ex-guerrilheira que venceu seu primeiro teste como candidata a um cargo público. Conquistou O CARGO. Nós agora estaremos sob o comando de uma mulher, chamada Dilma. Tudo bem que algumas não tem muito do que lembrar de 2010, como algumas governadoras que colheram o que plantaram nos últimos 4 anos. Mas a grande conquista do ano foi delas. Machistas, tremei!
Machistas, ciumentos, psicopatas. Um advogado – ADVOGADO – mata a namorada brutalmente por ciúmes. Um goleiro famoso que não aceitava a paternidade exigida pela mãe de um filho seu e, sem pena e com ajuda, esquartejou uma vida, manchou uma bandeira vermelha e preta, envergonhou uma nação. A mesma nação que vibrou ao ver que a justiça do povo ainda funciona. A prisão dos Nardoni foi um marco de participação popular, de eficiência do nosso judiciário. Tudo bem, nada é perfeito! Muita corrupção, a Casa Civil escandalizou o país, crimes chocantes, propina, ladrões. Políticos. Alguns não conseguiram voltar, outros se livraram, mesmo não tendo a ficha limpa.
Um ano bastante diferente. A Rússia entrou no caminho da bola, vai ser sede de Copa. O Qatar idem. Por favor, não pensem que essas escolhas foram baseadas em qualquer grau de tradição futebolística dos dois. Afinal, qual seria esse grau? Talvez um que se aproxime do clima na Sibéria. Foi por dinheiro, meus caros! O dinheiro. Engraçado como ele pode escorrer pelo ralo e te levar junto. Quem quer dinheiro? Eu quero, você quer, e o Homem do Baú... Bem, ele nunca precisou tanto. Um rombo pan-americano, do tamanho da grandeza de um império.
Um império que se retira do Iraque pela porta dos fundos, sem muito alarde. As tropas americanas desistem e agora os olhares yankees se voltam para o vizinho, Irã. Mas, falando em tropas, por aqui quem mandou foi outra. A Elite do cinema nacional, recorde de público, sucesso de crítica – duplo, pois foi o mais badalado filme brasileiro em 2010, e conseguiu captar com realismo a dura face corrupta da polícia. Um ano para lembrar grandes figuras da história. Chico Xavier, Odorico Paraguassú, Quincas Berro D’agua. Um ano onde apostadores quebraram. “Avatar”, a sensação do cinema mundial, com o diretor de Titanic, em 3D, cheio de surrealismo, trazendo uma mensagem bonita de proteção à vida, a grande onda do século... Perdeu o Oscar para um filme quase-amador, cru, sangrento, sobre uma guerra. Incrível? Muito pelo contrário. Não há mais espaço para clichês em Hollywood.
Pessoas nos deixaram, Nazinha nos abençoou, o Brasil se consolidou, o dólar baixou, muita coisa mudou. E todos chegamos até aqui nos perguntando: e agora?
O que adianta saber? Essa história de tentar adivinhar o que vem por aí nunca dá certo. Se o novo governo vai ser bom, se a Seleção vai voltar a ser campeã, se a educação vai melhorar... Tudo são expectativas. Essas sim nós temos todo o direito de nutrir. Mais um ano vem chegando. A gente se encontra por lá!
E fecha a conta.  



domingo, 26 de dezembro de 2010

Primeiro ato

“T
oda grande caminhada começa com um primeiro passo”. Já diz o provérbio uma das maiores verdades dessa vida. Caso hoje você esteja confortável, ou até mesmo reclamando por ter entrado em uma maldita rotina, lembre-se que, um dia, você estremeceu, você chorou, você sentiu medo, aflição, ansiedade, por causa do que faz hoje. Sim, todos nós um dia começamos qualquer coisa na vida e, inevitavelmente (se você nasceu e vive neste planeta), nós viramos um turbilhão de emoções, que serão aquelas histórias que todos contarão aos netos. Seja sorrindo, seja chorando.
O primeiro dia de aula, como é traumático! Para uma criança, os primeiros meses na escola, vendo seu pai ou sua mãe indo embora pelo portão, aquela pessoa que chamamos de tia, tomando o lugar da sua mãe... Quanto chororô! Faz parte. Mesmo quando grandinhos, mudar de colégio é desconfortável, até mais. A comodidade dos amigos de sempre fica para trás e somos obrigados a começar uma nova jornada. E o primeiro beijo? Inesquecível de tanto que tentamos esquecer. Inexperientes, coitados, muitas vezes fazemos por pressão dos amigos ou de nós mesmos, e quase sempre a delícia da coisa fica em segundo plano. Em primeiro, fica o fato: eu sei beijar!
Isso porque eu nem falei da primeira vez de fato (eu sei que vocês entenderam). Frio na barriga, o suor do desejo se mistura ao suor da tensão, e tudo vai acontecendo, e vai, e vai... Foi. A primeira nunca é melhor, porém é a mais importante. Tão importante quanto o primeiro vestibular, a primeira bicicleta, a primeira viagem sem os pais. Liberdade, condição para a felicidade. Ótimo, quando temos responsabilidade, quando somos maduros o suficiente para conhecer nossos limites sem ninguém nos limitando.
A emoção da primeira comunhão, o orgulho do primeiro salário. O primeiro texto publicado que inicia uma carreira, um sonho, o primeiro show para além dos amigos da banda, aquele primeiro porre. A cabeça dói, o corpo dói, a consciência dói, entretanto algo acontece que, sempre quando lembramos das nossas cabeças enfiadas na privada, começamos a rir, nem que seja somente para nós mesmos. Mas dor de verdade nós sentimos na cruel, na terrível, na abominável experiência do primeiro fora. Caramba, isso sim deprime! O primeiro troféu nos jogos do colégio, a primeira estrelinha de bom comportamento, a primeira vez que assistimos Chaves, a primeira noite fora de casa. Depois de algumas dessas noites, já estamos casados, com a nossa família, e aí começa mais uma jornada. Pagar as primeiras contas do mês, a primeira crise de TPM da esposa, o primeiro filho...
O começo de tudo traz angústia sim, tira noites de sono sim, nos dá sempre, em qualquer situação, as pernas bambas e os calafrios que nos fazem lembrar que nós estamos nesse plano para viver. E isso é viver. Encarar desafios, vencer os medos, mergulhar nos seus ideais, realizar os sonhos. E o que teria graça nessa vida se ela não fosse um grande corredor, cheio de portas entreabertas, por onde nossa curiosidade vai nos levando? Desde a primeira escolha, aprendemos a lidar com um mundo que mais parece uma peça de teatro, com várias cenas, cheia de personagens, na qual vivemos situações diferentes a cada ato. Nada supera em emoção o primeiro dos atos, a primeira impressão, a primeira vez. Por isso ela não se esquece jamais.


(Texto publicado no jornal Folha de Óbidos, edição outubro/novembro de 2010)


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Se eu fosse você...

Hoje a noite de um certo velhinho vai ser trabalhosa. Imaginem só que esse senhor, barbudo e gorducho, resolveu passear pelo mundo inteiro todos os anos na mesma noite, realizando os desejos de todas as pessoas. Mas não se iludam, nada é perfeito. Ele não conseguirá atender a todos. Porém, não custa tentar. Todos os anos eu faço os meus pedidos, esperando piamente que se concretizem. Na verdade eu sou muito pidão, não exijo nada menos do que a felicidade para toda a minha família. Toda mesmo. Mas hoje eu resolvi pensar um pouco e tentar me colocar no lugar de outra pessoa, por um minuto, o minuto dos pedidos.
E se eu fosse, por exemplo, o Sílvio Santos? Talvez pedisse um milhão de reais, ou dois, dois mil, já que agora é ele que quer dinheiro para não fechar o Baú, com ele dentro e as chaves do lado de fora. Já se eu fosse o Eike... O que o Eike ainda não tem, que o dinheiro dele não possa comprar? Paz? Talvez. Se eu fosse a Hebe, eu poderia pedir mais uns vinte anos. Como se fosse necessário. Se fosse um promesseiro, sem dúvidas pediria a chance de pagar o que prometi na corda do Círio ano que vem. Uma das promessas seria um vestibular, quem sabe. Falando em vestibular, eu talvez pediria outro emprego, caso fosse o Ministro da Educação.
Educação. Tiririca, se eu fosse você, meu amigo, eu desejaria um pouco mais de seriedade. É a imagem de um país mais do que arranhada que pede.  Se eu fosse acreano, pediria que meu estado fosse reconhecido; se eu fosse gaúcho, que meu estado fosse melhor reconhecido, algo além das piadas. Se eu fosse um metaleiro, um ingresso para o show do Iron. Se fosse um roqueiro, um ingresso pro Rock In Rio. Se eu fosse colorido, apenas mais uma calça laranja. Mas se eu fosse um deles, com certeza eu pediria um pouquinho mais de respeito. Menos vaias, talvez. Se eu fosse noveleiro, pediria pra saber primeiro quem matou o Saulo. Se fosse artista nacional, rezaria por incentivos decentes do governo.
Por falar em governo... Se eu fosse um senhor chamado Simão, eu pediria, não apenas hoje, mas durante as noites dos próximos quatro anos, responsabilidade. Um Estado inteiro depende de seus pedidos. E se meu nome fosse Dilma, ah, aí o Velhinho teria trabalho! Eu deveria pedir por mim e por mais 190 milhões. Consciência, respeito e um pouco de sorte, apenas para garantir que os próximos dias sejam tranqüilos. Meu nome é Obama. Então, que o Senado me apóie, apesar de ser oposição.
 Se eu fosse um holandês, iria pedir sorte na próxima. Mas se eu fosse espanhol, o que mais eu poderia pedir? Seria até indelicado, o maior presente que eu poderia ganhar foi entregue em julho, em terras africanas. Se eu fosse o Dunga, pediria um tempo, para o Brasil inteiro esquecer a raiva que sente por mim. Se eu fosse o treinador do Santos, torceria muito para conseguir controlar ímpetos, e que o Ganso voltasse logo. Já se eu fosse torcedor do Paysandu, bem, eu sou torcedor do Paysandu. O que pedir? Mais respeito? Mais raça? Menos sal no ano que vem? Tudo parece pouco. Talvez eu pedisse apenas uma temporada digna.
Mas, e se eu fosse um menino que vaga pelas frias noites mundo afora, iria suplicar por um prato de comida, por um cobertor, por esperança. Pediria um futuro. Como eu queria ser Noel nessas horas. E eu posso. Todos nós podemos. Se eu fosse um paciente na fila de espera por um transplante, pediria que o tempo voasse. Se eu estivesse em uma cama de hospital, idem. Que não acontecesse o mesmo com ninguém, esse seria o meu desejo ao jogar a flor sobre o caixão de alguém que vai e nunca mais voltará. Se eu fosse um desabrigado pela chuva, suplicaria por um teto. Se fosse um militar, só queria sobreviver por mais um ano. Mais um mês. Mais 24 horas. Esse seria o meu pedido diário, se fosse um alcoólatra buscando salvação. Se fosse um viciado em qualquer coisa. Menos em amor.
Pediria uma namorada, a minha namorada, alguém ao lado. Se eu pudesse ser Camões, gostaria de nunca perder a vontade de escrever. Se fosse Peter Pan, que eu nunca crescesse. Se eu fosse uma criança carente, que dependesse de almas amigas, como a de D. Zilda, que se foi, eu pediria que nunca essas pessoas boas deixem de olhar por nós. Se eu morasse no Haiti, uma certeza: nunca mais outro dia como aquele de fevereiro. Se eu fosse um soldado, que eu ganhasse a paz. Se eu fosse um líder, que tivesse prudência. Se fosse um liderado, sucesso. Se eu fosse candidato, que vencesse. Se eu fosse um derrotado, mais uma chance. E, se por acaso, eu fosse um daqueles mineiros chilenos, eu nada teria a pedir. Muito sim eu teria para agradecer, pelo presente mais bonito que uma pessoa pode receber, e que eu teria ganhado em dobro: a vida.
Mas eu sou apenas um menino. Um jovem, que vive em uma cidade problemática, cercado pelos perigos mais banais, que tem esperança no dia de amanhã, no ano que está chegando. Se eu fosse eu mesmo, o que eu pediria? Ser bem-sucedido, reconhecido pelo que eu faço. Ter uma cama quente, comida na mesa, uma sala de aula, uma vida cercada de amigos. Vencer os desafios, ser desafiado. Ter certezas simples, como a de voltar vivo para casa todos os dias. Morar em uma casa cheia de paz, cheia de família, cheia de amor. Amor. Muito amor. E não é isso que todos nós, independente de credo, raça e sexo tanto queremos? Queremos amor, queremos amar. Um coração limpo e sempre aberto, que erre muito, se necessário. Mas que um dia acerte. Papai Noel terá trabalho nessa noite. Não apenas comigo. Hoje a noite tem tudo para ser feliz, e se a sua não for, acredite: a de amanhã pode ser. 
Se eu fosse eu, pediria apenas a felicidade. E o quê eu pediria, se eu fosse você?                         

Muitas noites felizes a todos vocês!





quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O fingidor

Quantas pessoas mentem sem querer mentir, machucam sem querer ferir? Situações podem obrigar o menos pecador dos homens a cometer o mais grave dos erros: enganar. Jogar um jogo tão cheio de regras burláveis, como é o jogo da vida, é tarefa difícil, sabemos disso sem precisar ler clichês como este. Imagina só quando  a brincadeira é jogar com peças que não são suas? Manipular trajetórias, mudar o rumo de ventos que não sopram pelo seu rosto... Às vezes não é questão de falta ou não de caráter. É questão de necessidade, até de sobrevivências.
Entram em cena os dilemas, dignos de novela das oito. Contar ou não contar? Uma resposta que pode valer milhões, pode valer um emprego, pode valer uma vida. Quando brincar com a verdade custa caro demais. O homem precisa se render ao personagem, a realidade vira ficção, e máscaras começam a se desenhar dentro de uma alma que vira protagonista de uma mentira, às vezes tão bem contada, que passa a ser a verdade absoluta de quem a diz. Quem é forçado pelas circunstâncias a criar um universo paralelo, sem direito a tangências que o tragam de volta ao cortante mundo chamado vida real.
O sentimento sufragado por indiferença artificial, a carreira sacrificada pela família, escolhas. Quem resolve ser um fingidor deve ter – ou saber que terá que adquirir – o sangue frio que sustenta uma mentira. E se sofrer, ótimo. Esse é um indício de que ainda pode haver humanidade por trás do personagem. Merecem perdão aqueles que enganam por obrigação. Quem seria eu para condenar algo por si só tão condenável.
Entretanto, nós temos a chance de escolhermos nosso caminho, e ele decidirá o tipo de fingidores que devemos ser. O fingidor bom é o que não escolhe sozinho o personagem que encenará. Quem, além de escolher, o cria com feições tão duras e intenções tão perversas, é um bom fingidor. Ah, pode ser ótimo, perfeito, vencedor de Oscar inclusive, conforme o tamanho das tramas que constrói e manipula. O fingidor de alma, que nem alma tem. Mente, não sente. Não sente. Como mascarar um amor? Simples. Some a ele um interesse maior. Quem ama de verdade não consegue enxergar algo que valha mais. Por enxergar, o farsante se autodenomina.
O pior dos vilões, o articulador. Movido por inveja, por ciúmes ou por outra justificativa injustificável, o mentiroso por vocação, não por opção. Passa por cima de quem for, do que for. Quem será a próxima vítima? Eu. Você. Um de nós. Como saber quem finge um sorriso, como decifrar a maldade por trás de um anjo? Se fosse tão fácil quanto nas tramas de Silvio de Abreu... Nós não somos espectadores, não assistimos toda a novela. Nossos olhos nos permitem apenas ver o que nós enxergamos. Simples. Complicado.
Todos nós mentimos, todos nós fingimos. E o que o ser humano é, a não ser um personagem, cheio de defeitos, falhas de moral, desvios de conduta, covardes a ponto de não conseguirem ser transparentes? Ninguém é tão claro, nenhum vidro é tão translúcido, que não mostre cantos embaçados. E se, algum dia, o diretor, chamado acaso, resolve nos mudar de posição no cenário, ou trocar os textos, ele pode. Sabe por quê? Porque ele não precisa da permissão de mais ninguém. O fingidor, seja eu, seja você, vive o que a vida lhe dá. Engraçado! Nós somos tão contraditórios que, ao mesmo tempo que escrevemos o nosso roteiro, não temos controle sobre ele. Caem mascaram, sobem máscaras, e assim seguimos. Personagens de nós mesmos, amando, desejando, vivendo. Fingindo. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Selo Blog de Ouro - Indicações



Esse selo eu recebi da Helen Gomes, do blog "Identidade Peculiar" (http://identidadepeculiar.blogspot.com/), e agora eu envio a quatro obras de pessoas talentosas, que fazem das letras uma diversão, para eles, os escritores, e para nós, sortudos leitores de tanta coisa boa. Aí vão:


O primeiro blog de ouro é o "Manga e Poesia" (http://mangaepoesia.blogspot.com/), do grande Thiago Azevedo, um craque na arte de trazer lirismo aos temas mais banais. Versos profundos, conteúdo e, acima de tudo, competência. Um verdadeiro poeta por excelência.

"Súbito Objetivo" (http://subitoobjetivo.blogspot.com/), outro blog que promete bastante. Recém-chegado à blogosfera, Robson Heleno já mostra um primor nos seus textos, histórias densas, sonetos nada aleatórios, trazendo o amor e suas vertentes para os poetas. Potencial. Esse blog tem muita estrada pela frente.

Raíssa Bahia, a autora do "Entreletr@s" (http://raissabahia.blogspot.com/), uma romântica inveterada, que faz das letras um portal para os mais doces textos... Com certo toque de calor, o fogo da paixão. Talentosa, inspirada e inspiradora, merece selos e selos de qualidade pelo que faz. E pelo que é.

A pequena Camila Miranda escreve o que pensa, em textos cheios de juventude e opinião, no "Dias Frenéticos" (http://diasfreneticos.blogspot.com/), um espaço onde ler se torna um prazer. Curtos, grossos, bons. Merecem um clique, dois e mais.





Afinal, o que nós queremos?

A mulher é um bicho complicado. Toda mulher quer tudo de uma vez só. Mulher dá trabalho. Nem Freud soube explicar o que elas querem...

Quem nunca ouviu, ou melhor, quem nunca disse uma dessas frases ao menos uma vez na vida? Não tiro a razão nem a validade de nenhuma delas, não apenas por já ter dito todas e mais outras... Ora, que homem não acha o mesmo, sem hipocrisia? Mas, deixando todo o feminismo de lado, garotas, por favor, me digam se não há uma gotinha que seja de verdade nisso. E para provar que esse texto não está sendo escrito por um garoto machista ao extremo, eu assumo: não são apenas vocês, lindas rosas, as únicas insatisfeitas e insaciáveis do planeta Terra. Nós, homens, também somos.

Todos nós somos, na verdade. A diferença é que os cuecas conseguem montar uma armadura que os escondem de tudo e de todos, evitando que vejam tudo o que tem por trás desse muro, feito de orgulho, vergonha e alguns tijolinhos de covardia. Nas mulheres esse escudo pesaria demais. Não por fraqueza, óbvio. Vocês, meninas, resistem a tudo com uma obstinação, com uma força, invejáveis. Mas vamos combinar que a dureza do concreto não combina nem um pouco com a sutileza feminina, que não esconde nada, nenhum desejo, nenhuma angústia. Somos a ostra fechada da humanidade, e nem nos importamos muito em deixar de ser. Nos escondemos até mesmo nas críticas e piadinhas que fazemos contra vocês, meninas. É! Quando as chamamos de “complicadas”, nós na verdade queremos chamar a nós mesmos de complicados.

Por tudo isso, os desejos femininos ficam mais evidentes. Pelo menos em quantidade. Querem um príncipe encantado, que seja um lorde para apresentar às amigas e um pedreiro na cama, querem alguém que não deixe toalha molhada na cama, nem espalhe suas cuecas pelo banheiro... Ou não. Querem ter dinheiro, ter filhos, ser mães... Ou não. Querem isso, o aquilo... Ou não. Muitas vezes nós não conseguimos entender as quase cifradas súplicas da mulherada. E admitam: outra mulher entende na hora o que vocês querem, e um homem pode entender em dias. Mas, afinal, vocês querem que ele entenda, não é? Por quê diabos não explicar melhor PARA ELE? Vai entender...

Mas, é hora de dar o braço a torcer! Cuecada, temos que admitir que nós também não somos lá o exemplo-mor de objetividade. Somos sim cheios de vontades, e talvez mais cheios de dúvidas do que vocês, mulherada! Queremos todas de uma vez só, ganhar dinheiro sem trabalhar, somos os maiores preguiçosos da escola e sempre queremos nos dar bem, dinheiro, mulheres, férias, mulheres... Não, não precisa gritar dizendo “eu sabia!!!” ou algo parecido, menina. O fato é que, na realidade, todo ser humano é assim, impulsivo, sujeito a burradas homéricas e vitórias consagradoras, seres que pensam demais, sonham demais, querem demais. Nem todo garoto sonha em morar na Mansão da Playboy, nem pensa em ser jogador de futebol. Assim como não são todas que esperam o dia em que virem modelos ou atrizes. Não. Imaginem se tudo fosse tão previsível quanto pode ser... Que gente chata, que mundo chato. Pragmático, estanque. Os homens são férteis, em todos os sentidos (entendam como quiserem), e sonham igualzinho as mulheres. Mas o bendito muro ainda nos protege. Ou esconde.

Se agradar um macho é bem mais simples, como comprovadamente é, não se engane! Talvez a gravata que ganhamos do amigo secreto não seja o que queremos. Porém, não somos todos que temos coragem de reclamar. Eu acho que o homem seja uma raça um pouco mais conformada, digamos assim... Opa! Podem fechar esses sorrisinhos malignos aí, garotas, pois nada do que eu possa ter dito sobre nós muda a nossa opinião sobre vocês! As mulheres são complicadas de entender SIM, indecisas SIM, não compreendidas nem por Freud SIM!


[…]



E quem não é complicado, indeciso, incompreendido? Todo ser humano é assim, e se torna belo por isso, justamente por ser um eterno e infinito objeto de estudo, que enlouquece ao mesmo tempo que inebria, que explica e confunde, que resolve e complica. Se Freud ou qualquer outro analista do comportamento humano conseguisse, um dia, descobrir o que querem, afinal, as mulheres, seria amado e odiado por cada garotinho que nascesse depois disso. A mais irritante e atraente diversão nossa é tentar responder ao que ninguém nuca conseguiu e nem conseguirá responder. Entretanto, os homens, por mais que pareçam, não são tão previsíveis quanto parecem. Para cada desejo feminino incompreendido, existe um homem com uma interrogação na cabeça. Querem apostar? Então, você, garoto ou garota, que se acha tão bem resolvido, prove! Como? Simples. Responda, o mais rápido possível, a pergunta seguinte, sem se complicar: afinal, o que você quer? 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Contestação

Me contaram certo dia que a vida era muito injusta, que Deus não olha por ninguém aqui embaixo, e que nada do que a gente tem vale pra sempre. Resolvi parar e pensar. Eram palavras fortes, cuspidas, sem saber em quem iriam acertar. Acertaram justamente na minha cabeça, preguiçosa, calma feito um baiano deitado em uma rede colorida. Refletindo, acabei viajando. Até que ponto essas lamúrias tinham fundamento? Será que a vida é mesmo esse monstro que fiz na minha mente após tanta fúria relatada?
Logo imaginei que a pessoa que me disse todas essas coisas não tinha noção do que possuía nas mãos. Culpa de um par de chifres, de um não, algum problema “cardíaco”, que de tão forte nos leva a dizer cada balela. Sei lá. A vida é injusta? Mas é claro que sim. Pensem comigo! Se o conceito de justiça defendido pela pessoa – que, por sinal, é o que está arraigado em muitas mentalidades mundo afora – for o de plenitude de realizações, onde eu tenho que ter as mesmas chances do vizinho, que essa pessoa considere-se morta sentada, se resolver esperar por ela. Igualar a todos já não é desigualar? Se todo mundo é diferente, as oportunidades não podem ser iguais, e idealizar que você tem que ganhar na loteria só porque sua tia ganhou não tem nada de justiça. Isto eu chamo de inveja.
Outra coisa importante: as oportunidades são criadas por quem delas quer ter. Eu guardo comigo uma frase de um cidadão, acho que vocês o conhecem, o nome dele é Gandhi, que dizia “seja a mudança que você quer ver no mundo”. Ora, injusto é que você espere tudo cair do céu, imaginando que Deus tem a obrigação de realizar todos os nossos caprichos. Ele nos botou na terra justamente para que façamos o nosso caminho, e mesmo assim muitos de nós insistimos em não largar a barra da túnica do Pai, como filhinhos birrentos e reclamões. Se a humanidade resolvesse crescer um pouco mais, talvez tudo fosse mais fácil.
Se eu tenho medo de não ir pro céu, falando tudo isso? Me digam vocês, então: o que é o céu? E o inferno? Isso existe? Obviamente. O céu é aqui, o inferno é aqui, não preciso morrer para ir às nuvens ou sofrer no borbulhante caldeirão de mágoas e castigos. Se me perguntarem se no céu existe álcool, direi que sim. Se existe sexo, direi que SIM. Amor, compaixão, bondade, sorriso no rosto, harpas e liras, tudo isso se encontra aqui, aqui mesmo, sem precisarmos subir um degrauzinho da escada final. E quando falamos de inferno, caramba... Olhem as favelas cariocas, olhem para os lados. Quantos aqui dormem em calçadas? Quantos aqui não sabem o que é banho quente, almoço no prato, cama coberta? Torcem pro Palmeiras, são alunos da rede pública, enfrentam filas burocráticas. Quer inferno melhor?
Que me perdoem o sacrilégio, mas sacrilégio é pensar que nada do que temos vale para sempre. Honestidade, afeto, dignidade, são qualidades feitas não de matéria, mas de puro sentimento, e isso tem valor eterno. Eu ainda torço por um futuro onde as pessoas não pensem que só se admira algo quando vem de fora. Não. Nós temos que nos transformar nos nossos objetivos, a mudança deve nascer em nós, e não cair de uma mangueira. Viver não é questão de justiça. É questão de oportunidade. Então, o melhor truque para se realizar vai ser sempre ter giz no taco e bala na agulha. O passarinho pode não passar duas vezes no seu céu.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Amanhã

Amanhã é claro que o sol vai voltar, mais uma vez. Eu sei, nós sabemos. Amanhã terei mais uma chance de fazer o que hoje eu não pude, o que ontem eu não quis fazer. Até que se prove o contrário, há sempre o que esperar do dia seguinte, coisas boas ou ruins. Isso depende apenas do seu hoje. Nada deu certo, a sua vida resolveu seguir um caminho avesso, sem ao menos lhe comunicar, e você não sabe o que fazer, não tem o que fazer? O jeito é esperar. Se os seus pés cansaram, pedem descanso, se algo te pegou de surpresa e não fez bem, se alguém resolveu sumir sem saber quando volta para você, torça. O descanso pode ser amanhã, a surpresa pode te fazer sorrir amanhã, a pessoa pode voltar amanhã. É o que resta.

Pare e pense um pouco, verifique se vale a pena sofrer tanto pelo que está acontecendo. Talvez sim, valha mesmo, seja até necessário. Todo ser humano precisa do seu momento para chorar, pensar que não há mais salvação, imaginar que o fim chegou. Isso, em doses certas, pode ter efeito construtivo, até estimulando o recomeço. E quantas vezes nós temos que levantar, sacudir poeira e dar voltas na vida? Vivemos um eterno perde-e-ganha, e desistir na primeira queda é burrice. Nunca ela será a última, que isso fique bem claro. Enquanto nos sobrarem braços, pernas, cabeça e coração, tudo pode reiniciar. Trabalhos perdidos, arquivos que podem ser reconstruídos. Medalhas não conquistadas, escada para o topo do pódio. Amores que vão, amores que vem.

Qualquer gota de vontade vira um mar de superação, e basta que nós desejemos isso com fervor. Claro que não é fácil perder, nos vermos impotentes em frente às derrotas, elas derrubam, rasgam planos, quebram pernas. Mas que planos não podem ser replanejados? Não há derrota irreversível, nem a morte. A morte não pode ser considerada uma derrota, pois é fato consumado e fato que só faz a vida valer mais e mais. Esperar por ela passivamente é atestado de incompetência voluntária. Sim, voluntária! Pois todos somos inteligentes o bastante para decidirmos se a nossa passagem por aqui é digna ou não de ser aproveitada.

Se os erros são humanos, é nossa obrigação consertá-los o mais rápido possível. A vida dá a chance para quem sabe usar, mas ela pode não durar o suficiente. Talvez não seja uma boa ideia pagar pra ver até onde as oportunidades irão chegar. Se os problemas vêm até nós, sem cerimônias, sem pedir licença, quando é fácil imaginar que nada pode ser feito, ah, pode sim! Sempre pode. Afinal, nós somos ou não somos brasileiros? Dizem por aí que nós não desistimos nunca. Na verdade, ninguém deve desistir. Obstáculos, ora, todo caminho tem. O que nós, pessoas, precisamos ter, é jogo de cintura, paciência e, acima de tudo, esperança.

Nada é absoluto. Nem nós, nem a vida. Então, pode demorar, pode doer, mas o amanhã chega, ah, chega! Pode demorar um dia, um mês, um ano ou mais, porém o amanhã sempre estará lá, nos esperando. Não defendo uma vida acomodada, onde o que se pode fazer amanhã não seja feito hoje. Eu apenas acredito em mais uma chance. Acredito que o dia que perdemos hoje nos pode ser devolvidos sim. Só depende dos interessados. Acredite. O sol vai sim voltar amanhã. Eu sei. Saiba você.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Cara estranho

Olhem! Vejam só, um menino diferente. Ele não anda como um de nós, sua aparência não é nada agradável, parece sujo, inútil. Veste-se com trapos indignos até a um mendigo, ofega com deselegância, não sabe ser homem. Ele não sabe ser. Mas quem é essa pessoa, que cheira ao fracasso, como um pedaço de alguma coisa que caiu no meio deste mundo tão perfeito? Não usa maquiagem, não esconde suas imperfeições, mostra a sua cara. Que abusado! É um louco! Como ousa este homem empobrecer e ofuscar a nossa imagem, que brilha como uma baixela de prata?

Mas quem pode ser este ser? O homem das cavernas, talvez. Como é feio, como é pobre... Fraco! Insiste em se apegar a tudo, insiste em ter alguém, insiste. O mundo é de quem tem sorte, beleza e belas curvas. Mas esse aí... Nada tem, nada traz de bom. Apenas suja. Fraco! Acha que a única solução é o amor. Tolices. Acredita que o mundo pode ser um só, se importa com gente que nunca sequer viu. Esse cara diferente, que sonha, que idealiza, que não quer crescer sozinho. Ora, os outros não ajudam! São apenas resto. Pior! São um resto que atrapalha, emporcalha o caminho de estrelas que é dado a nós. Mas esse homem insiste em amar o próximo.

Por quê? Se o amor, ah, o amor é uma armadilha, o amor não deixa ninguém crescer, só traz rugas. Chorar? Ele chora, coitado. E chora sabe lá por que motivos. O que poderia ser tão triste? Nada mesmo, a vida é perfeita, o que pode ser melhor do que ver seus nomes na rua, conhecer a elite, beber as melhores bebidas, comer os melhores pratos? Como alguém ainda pode se entristecer? Não falei que esse cara é um tolo? Absurdo. A palavra é essa: absurdo. Ele é absurdo.

Esse cara sente, chora, fala. E como fala! Baboseiras, nada que funcione. Insiste em dizer que tudo é passageiro, que a vida é efêmera, e que devemos olhar para o lado, essas coisas. Mas a vida é tão mais cômoda assim. Nenhum de nós aqui acha que ajudar quem precisa traz felicidade. O que traz mesmo sorrisos são restaurantes glamurosos, festas maravilhosas, roupas de grifes... E ainda ousa nos chamar de fúteis! Ora, que petulante! Pensa que essa sua alma vai salvar o planeta lá fora da desgraça.

Mas quem é esse cara estranho, tão diferente? Um homem que ainda acredita nas pessoas, acredita que elas são capazes de mudar. Um menino que enxerga com medo o seu futuro, pois conhece bem o seu passado. Sua estranheza pode vir dessa tamanha humanidade, que lhe dá um tom tão pessoal, lhe aproxima daqueles que estão tão longe da bolha que isola algumas poucas vítimas da indiferença. Vítimas do egoísmo. Vítimas de si mesmos. Não sabem o que são grupos, são apenas eles mesmos. Quando se deparam com um alguém sem luxo, sem marcas, de cara limpa, reagem como se fosse a bijuteria barata no meio do ouro. Mal sabem eles que essa bijuteria vale mais do que muitas arcas de tesouro. Pobre de quem enxerga estranheza em um homem como ele.




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Saudade da saudade

Sinto falta de tudo o que um dia eu tive, até mesmo daquilo que não quis ter. Há tempos atrás eu pensava em ter o mundo, em ser o mundo, eu imaginava tudo ao meu redor. Hoje me restou saudade. Saudade, do que eu fui, projeto dos meus sonhos, da inebriante insensatez que me fazia voar. Leveza dúbia, feita de medo e tesão. Tudo o que um homem precisa para ser alguém. Eu sinto falta, ah, como sinto, daquela brisa que esfriava minhas tardes quentes, e me adormecia como se fosse um menino, o menino que eu nunca quis deixar de ser! Eu era feliz e sabia. De tanto saber, o deixei de ser.

Sinto falta dos meninos com quem falava de meninas, sinto falta das meninas com quem pouco falava. Sinto falta da minha rua cheia de pequenos brilhantes, artistas, protagonistas de suas vidas felizes e sem compromisso com nada que não se chamasse felicidade. Dos tempos que eu nunca vivi, da vida sem tempo. O tempo. Ele não faz questão de parar, para tristeza da minha alma, que tentou não segui-lo, mas infelizmente obedeceu ao corpo. Sim, eu cresci. Sinto falta de ser um gigante de um metro e dez, quando eu ainda tocava o céu com a mão, onde quer que eu estivesse.

Sinto falta dos humores, dos amores, do que me movia. A chuva da tarde, o sol da manhã, o luar. As estações, do clima, do ano, da minha vida. Saudades de tentar apenas conquistar meus objetivos. Nem sabia ao certo o que eram as palavras, mas sabia muito bem o que elas queriam dizer. Sinto falta de falar, de me fazer ser ouvido, por uma pessoa, por todas. Ouvir cada passo do meu passado atrás de mim, aprontando das suas e, de vez em quando, me mostrando o caminho bom. Quando eu estava em encruzilhadas, a adrenalina da pressão pela escolha certa, a frustração do erro, o horo do recomeço. Tudo isso me faz falta.

Sinto falta de sentir. Ver, a minha vida, a vida alheia, ver o que de bonito o planeta me dava, sem cobrar nada. Ouvir, palavras sábias, nunca palavras inúteis, pois tudo o que é dito tem algo de útil, por menos que seja. Comer, sentir em minha boca os sabores, o doce do beijo, o amargo do fel. Tocar, ter em minhas mãos o corpo da mulher amada, descobrir, desbravar, todos os dias, o que eu já conhecia. Cheirar, farejar a vida pelas narinas, todos os aromas, flor a flor, lençol a lençol. Sinto falta de imaginar como seria o amanhã, segundo a minha vã e breve experiência.

Sinto falta da inocência, da decência, da transparência. Como o meu espírito era bom! Como eu era bom! Todos eram. Quando olhar para o lado significava confiar, e abraçar era mesmo um ato de afeto. Provar o amor que sentia não precisava de nada mais do que simplesmente sorrir. As notas musicais se completavam, as pessoas se completavam. Hoje eu sou diferente, o mundo inteiro mudou. E sem pedir licença acabou entrando no meu mundo e revirando tudo. Saudade. Hoje eu sinto falta de sentir falta. Sinto saudade de, apenas, sentir saudade.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Não acorde!

A pessoa que sonha nunca estará só. Seus desejos mais fortes, seus objetivos mais buscados, seus sonhos mais vividos, tudo isso são coisas que levamos para a vida inteira. Se queremos desistir, algo sempre nos diz “calma”! Nos faz parar, pensar, repensar, ver se vale mesmo a pena abandonarmos nossos sonhos por algo tão menor. Sim, menor. A realidade nada mais é do que uma bela estraga-prazeres, que teima em nos acordar. Ah, se o mundo lá fora não fizesse tanto barulho em frente a minha janela! Talvez eu tivesse mais tempo para andar nas nuvens...

Mas quando temos um desejo, aquele centro do alvo preso na parede, que a gente sempre tenta acertar com o dardo. Talvez não haja analogia melhor. Quantos tiros nós erramos até acertarmos o primeiro? Talvez, com sorte de principiante, não demore muito até que o sucesso chegue, mas todos nós sabemos que demora. Se o caminho não fosse tão longo, talvez não fosse tão satisfatório, talvez nem virasse história para os netos. Histórias... Quantas nós escrevemos durante a caminhada? Entramos, saímos, voltamos para o caminho. Criamos novos caminhos. Enveredamos por tantos mais. Se caímos e levantamos, ora, tudo bem. Se esquecemos dos nossos desejos... Nós nunca esquecemos.

Podem ser adiados, o tempo pode ser amigo-da-onça. Podem ser modificados, pela necessidade, por dinheiro, por limitações. Só não podem morrer. O mais triste, mais até do que ver um projeto real não vingar, é sentir que o sonho acabou, que a mente parou de funcionar. Se você perdeu algo material, algo já concreto, basta lutar para reerguer, reconstruir. Entretanto, quando deixamos de querer, de sonhar, nada mais pode ser feito. A pessoa que não sonha não é mais nada além de um espeto de carne ambulante. Ou melhor, estático. Alguém já dizia que o que nos move são os nossos sonhos.

Há quem critique os sonhadores, os acusando de inúteis, de utópicos, desocupados. Quem não consegue ver o valor que tem a mente humana não conseguirá nunca ser humano. A nossa riqueza mais própria é a nossa capacidade de sonhar. Sonhar sempre, sonhar tudo. E a cada novo dia, a cada descoberta, a cada começo, o sonho ganha mais vida, mais cores. Um dia ele se completa, sem nunca deixar de ser sonhado. Que me chamem de onírico, de maluco, de avoado! Eu quero mesmo é querer, sempre mais, sempre todos, sempre sempre! O tempo? Um dia ele cansa de ser tão turrão. Aliás... Tempo é detalhe. O mais importante não é saber quando acordaremos, mas sim por quanto tempo ainda sonharemos.






domingo, 28 de novembro de 2010

O que é, o que é?

As mãos tremem, a testa sua, o coração acelera. Ah, que sentimento é esse, que chega sem avisar, toma de assalto, atropela e avança sem ponderar, que nos derruba e faz voar ao mesmo tempo? Como se chama esse arrepio, essa tremedeira incontrolável, que faz as pessoas mais normais agirem das maneiras mais estranhas ao ver um olhar, um bilhete ou um simples recado? É amor? É paixão? O que é?

Se for paixão, tudo bem. Você ainda tem salvação, se quiser, claro. Pode se controlar um pouco, mesmo ardendo em chamas. Agora, se isso tudo for amor, amigo, prepare-se! Você entrou em um caminho cujo retorno fica longe, bem longe... mas, afinal, qual a diferença entre o amor e a paixão? Simples! Um apaixonado consegue viver tranquilamente a distância, consegue se alimentar, suporta acordar sem ninguém ao lado na cama e, acredite, conhece seus limites. Mas quem ama de verdade não tem limites. O amor cega, ensurdece, enlouquece. Dez minutos sem uma ligação do amado viram desprezo, o buquê de flores vira traição, a distância vira eternidade.

Quem se apaixona não abre mão de sua vida; quem ama não abre mão da vida do outro. O apaixonado quer o bem da outra pessoa; quem ama quer a pessoa. O amor é egoísta, quer exclusividade, quer notoriedade. Obriga o seu alvo a mostrar ao mundo que ele existe, custe o que custar. Quantas paixões simultâneas alguém pode ter na vida? Ah, como é bom! A sensação de liberdade do apaixonado... As correntes do amor possuem sim um cadeado, com as chaves muito bem guardadas em um lugar difícil de chegar: a separação. Paixões vem e vão, amores também. O que difere um do outro são os estragos, o que eles deixam depois de passarem pela pessoa. A paixão pode nem ser notada. O amor, bem, o amor quase sempre passa feito tsunami na ásia.

Por favor, não precisa atirar seu Cinco Minutos em mim, se você é romântico inveterado. Eu não estou criticando nem um nem outro. Quem sou eu para tal! Afinal de contas, sou terráqueo, feito de carne, osso e coração, ou seja, já fui – ou ainda sou, eternamente serei – vítima destes dois ótimos venenos. Amar é bom, afaga a alma, conforta, faz felicidade brotar das esquinas, dos hidrantes, das janelas. O sol brilha mais forte, a lua é mais clara... Muito sol pode queimar, claridade demais pode cegar... Paixão também é coração, óbvio. As doses sim são distintas.

Portanto, caros leitores, o amor e a paixão são diferentes, mesmo tão próximos. Os sintomas iniciais são praticamente os mesmos. O calor do corpo e o frio da barriga, o medo, o desejo, as esperanças. Enfim, estar apaixonado nada mais é do que um estágio, um degrau, talvez o mais próximo até o amor verdadeiro, na escada alta e sem corrimãos construída pela cabeça e sustentada pelo coração. A linha que nos separa o resto de sanidade da loucura é tênue, tão tênue quanto os nossos caprichos. Se você está apaixonado, preste atenção! Você já pode estar amando e nem sabe. E o que adianta saber, se voltar atrás nem sempre é a melhor opção?



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sobreviventes

Entre balas de fuzis uma cidade tenta sobreviver. No meio de trincheiras, bombas e soldados, de bem e do mal, levantando bandeiras bastante diferentes, uma cidade tenta sobreviver. O Rio pede paz. Somente o Rio?

Reféns. Todos nós, de norte à sul deste planeta chamado Brasil, somos reféns do medo, da insegurança, do terror. Achar que apenas cariocas precisam de escudo é desconhecer a realidade de sua própria realidade, é fechar os olhos ao manto negro que, infelizmente, cobre uma nação inteira. O caos de um país cabe em uma cidade nestes dias. E agora? Cuidar das causas ou das consequências? O que gera o quê? Será que a violência é apenas física, e que os tiros perfuram somente corpos?

O sofrimento é físico, intelectual, moral. A moral de uma cidade maravilhosa, bonita por natureza, sede olímpica, de Copa do Mundo, cheia de qualidades para mostrar ao Brasil e ao mundo, mostra também o lado mais sombrio, sombra que invade favelas, condomínios, da Penha ao Leblon. Mas o buraco é bem mais embaixo. Vem de antes do primeiro gatilho apertado. Talvez o erro esteja lá no comecinho, o comecinho da vida, educação. Falhou, não atraiu, não educou. O resultado: ligue a TV, visite um site de notícias, abra o jornal. Você não verá nada de novo. Nem a sua reação será.

Assistimos ao vivo a uma guerra que somente os Estados Unidos eram capazes de nos proporcionar. A guerra é aqui. A guerra somos nós. Todos somos guerreiros, muitos lutam por todos, fardados, defendendo seus interesses. Outros lutam pela perpetuação de um mal, que mata sem pólvora, que destrói sem canhões. A maioria, no entanto, luta apenas pelas suas próprias vidas, que é mais do que o bem mais valioso para alguns. É o único bem. Apenas chegar em casa se torna uma odisseia, com heroísmo homérico, digno de aventuras clássicas. A diferença é que elas acontecem agora.

Prevenir é melhor, porém não é o suficiente. Tudo não é o suficiente, perante tamanha perplexidade. Se a solução fosse apenas melhorar a educação das crianças... Se fosse apenas criar programas que unissem os jovens pelo esporte, pelas artes, pelo futuro digno... Se fosse apenas rezar... A polícia não protege, remedia. As Forças Armadas são apenas a constatação de que os tempos mudaram. Para pior. As cidades viram campos abertos de batalha, onde os civis são espectadores, protagonistas e narradores, ao mesmo tempo. São. Somos. Vítimas.

Até quando vai durar? Adianta saber? Traficantes, policiais, cariocas, quem vai saber? Nem eles sabem. Talvez a bandeira branca sejam dez, cem, mil, milhares, milhões, que nós temos a obrigação de hastear. Não apenas agora. Quando votamos, quando entramos na sala de aula, quando pagamos nossos (absurdos) impostos, quando respeitamos o próximo, todos os dias. A solução pode estar nas mais simples atitudes, que podem garantir a nós o direito básico de viver. E enquanto esse dia dos sonhos não chega, o que nos resta é torcer. O que nos resta é sobreviver.


domingo, 21 de novembro de 2010

O resto de mais nada

E quando não sobra mais nada... Tudo é nada... Fim. O que se vê é um imenso vazio, infinito clarão, claro, escuro. Nada se vê. Os olhos viram matéria, deixam de enxergar o que um dia foi alimento, o corpo perde seu alimento. O corpo se transforma em alimento. Fome. Há tempos atrás, como era lindo buscar, correr atrás, conhecer o novo, cheios de inocência, como se esse novo nunca fosse envelhecer. Velho. Somos velhos. O tempo, calculista e articulador, tramou o plano perfeito para nós. Contra ou a favor. Ele nos encheu de vida, nos iludiu com a promessa de que nunca iria terminar. Blefou. Nesse jogo todos nós, um dia, baixamos as cartas e pedimos arrego. Deixamos de apostar.
E quando o que sobra é apenas um longínquo resto, um traço quase apagado daquilo que um dia chamamos de eu... Chamaremos o quê? De fumaça? De espelho? De simples ilusão? Não chamaremos ninguém para nos ajudar, toda a cota de ombros amigos e mãos estendidas já foram alcançadas. Não há mais para onde correr, não há mais a quem recorrer. Depois do nada, o nada tudo é, simples como uma nuvem, que paira bela e serena, mas despenca sobre nós em momentos de turbulência. A chuva. Quando eu perceber que a chuva não me molha mais... Eu serei chuva. De tristeza, de melancolia, de pura e dolorosa despedida.
E quando não formos mais do que grãos, que o vento leva de um canto a outro... Seremos todos os cantos. Estaremos em cada passo que os outros derem, em cada marca que o mundo cravar no seio da terra, em todo caminho que sobre nós for traçado, por aqueles que ficaram. E quem ficou? Será que alguém pode me ouvir? Deste plano tão insólito, desta terra que mais parece refúgio, mal sei se é inferno, se é céu. Não é vermelho. Não é azul. Minha infância foi coberta por mentiras que descubro agora. Depois que não houver mais nada, para onde eu irei? Até onde eu cheguei? Pouco importa agora tudo o que eu deixei de legado para um mundo, que nunca mais lembrará de mim. Se um dia alguém lembrou.
E quando os dias não forem mais tão claros... As noites serão mais frias, o que brilhar acima de nós serão estrelas, seriam nós mesmos. Depois do nada, olhos azuis, peles e seda, almas e erros, tudo. Tudo. Mais que tudo. As coisas que um dia pude nomear, hoje são inomináveis. O que um dia eu pude sentir, meus sentidos não me permitem mais. Seria um acaso ou seria tudo uma grande e bem sucedida armação dos deuses, que somente pelo fato de serem superiores, arrumaram um jeito de mudar o rumo do meu vento? Muitos são aqueles que agem da mesma forma torpe, sem nenhum título de divindade. Desde quando precisamos ser um deus para trocar as peças de lugar, no tabuleiro da vida? Simples seria, se as peças não fossem nós mesmos.
Por fim, quando tudo não passar de um breve sonho finito, de uma serenata em seus últimos acordes, talvez acordes. Acordar. Quando isso acontecer, nada será mais óbvio do que a certeza de que estávamos imersos em um sono diferente. Um sonho vazio, que nos fez vagar pelo infinito buraco negro, branco, multicolorido, do nada. Quando não restar mais nada, nem pó do que um dia fomos, nem das esperanças do que um dia poderíamos ser, aí sim terá chegado a nossa vez. A hora. Quando nada mais restar, o resto será vazio. O vazio será fim. E o fim, quem sabe, um dia volte a ser começo. Recomeço.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

15 anos - final

- Fala, Vitor? A Fernanda... Ela tem algo a ver com isso? Fala!
Então, Vitor contou tudo:
- Nem sei como começar... Ela apareceu na minha vida quando nada estava dando certo, e me cativou. Não pude evitar, foi forte, e eu estava fraco. Ela me entendia... Me acalmava, me confortava...
Enojada com o que acabava de ouvir, Regina exclamou:
- Vitor... Você é ainda menor do que eu imaginei, você é pior do que ela...
- Eu ainda não terminei, Regina! Me deixa terminar, não posso mais guardar isso em mim. Então... A Fernanda me propôs essa idéia, de sumir, de “morrer” e nascer de novo, como uma outra pessoa... Renascer! Era disso que eu estava precisando... Eu estava cego de fracasso, nos negócios, na família... Não via outra saída a não ser essa! Fomos embora, passamos um tempo fora do país, com uma identidade falsa... Antenor Moreira... O plano estava dando certo, mas ninguém sabe o quanto eu quis recuar, mas isso só faria vocês sofrerem ainda mais... O tanto quanto eu também sofri. A Fernanda me roubou, me deixou sem nada na Argentina, eu estava arruinado, eu Vitor e eu Antenor, sem dinheiro, sem identidade, sem vida...
Regina interrompeu:
- E sem caráter. Vitor, você... Eu vivi mais de vinte anos com um estranho... Eu me casei com um covarde, com um egoísta... Meu Deus, meu Deus, como eu tentei salvar a gente, Vitor, como eu tentei... Você e a sua covardia acabaram com a minha vida... Eu me culpei por todo esse tempo pela sua morte, como eu chorei... E a Marcela? Sabe? Sua filha? Ela está aqui ao lado, em uma cela, uma CELA! Presa, sem mais nada, destroçada... Você, Vitor, não matou a si mesmo. Você matou a nós três. Hoje eu consigo entender... Você é pior do que aquela vagabunda da Fernanda... O seu caráter é aquilo que te dizem pra fazer, então você é menor, vale menos do que ela... Dela eu sinto pena, mas de você, Vitor Castanho... Nem isso!
As lágrimas de Regina provocavam as de Vitor que apenas ensaiava dizer algo, balbuciava:
- Eu não mereço perdão, o que eu fiz foi monstruoso, eu sei, não mereço piedade, mas... Talvez um dia você me escute. Talvez...
Sem mais agüentar tamanho rasgo ensangüentado em seu coração, Regina falou a Vitor aquelas que seriam suas últimas palavras a ele:
- Vitor, não haverá mais “um dia” entre nós. Naquele enterro, aquela terra cobriu o que eu sentia por você, e o que sobrou foi hoje. Você pra mim não existe mais, Vitor. Nem pra mim, nem pra Marcela. Aquela festa de 15 anos, aquela noite, foi a primeira das últimas que você estragou nas nossas vidas... E, se você ainda puder fazer algo por nós, morra. Morra de verdade. Vitor, Antenor, quem quer que você seja. O que quer que você seja. Morra!
E nunca mais voltou.
(Hoje, 5 anos depois, Regina está noiva, voltou a sorrir, voltou a viver. De Vitor nunca mais se ouviu falar... E Marcela, hoje uma mulher, comemora mais um ano de vida, em sua casa, com seus amigos, com sua família de verdade. Hoje é feliz, mesmo ainda machucada por um sonho que nunca realizou: sua festa de 15 anos).


FIM


15 anos - parte III

Ela não poderia imaginar, nem em seus melhores devaneios, reencontrar seu pai vivo. Mas, se pudesse, não escolheria situação tão cruel. Aquele homem, do qual se afastara com um pulo de susto e pavor, não era sombra do grande Vitor Castanho do passado, da imagem que ela fez questão de guardar dele durante toda a sua vida. Barbudo, sujo, sofrido. Marcela, transtornada com razão, não conseguia parar de chorar e seu pai, com a face cheia de arrependimento e vergonha, idem. Depois do susto, Marcela só queria entender como, antes de pensar em saber por quê. Ele não tinha palavras. Ela tinha.
- Mas como? Como? Você... Meu pai... Como? Você aqui, na minha frente, assim... Eu chorei por você, eu sofri, me dilacerei pela sua morte, toda a sua família, todos... A minha mãe... Eu culpei a minha mãe esse tempo todo por você ter morrido, e agora eu vejo que... Você não morreu! Logo você que sempre foi meu exemplo, meu espelho de valores, de princípios, de bondade... Como você foi capaz? Como, pai? Por quê? Por quê?
Vitor tentava balbuciar algumas palavras...
- Filha, o que eu fiz não tem perdão, nem justificativa... Eu sou um projeto de gente, não mereço nada de você nem de sua mãe, mas eu te peço, filha... Me escuta! Por favor! Me dá uma chance...
- Te dar uma chance? Você quer que eu te dê uma chance? Você deu uma chance pra mim? Pra mamãe? Pra sua família? Deu, pai? Você tem razão, você não passa de um projeto... Aliás, de tão pequeno e baixo... Nem projeto você é! Você...
Nesse momento as sirenes interromperam esse reencontro trágico, era a polícia. Alguém viu o seqüestro e denunciou, mas não vem ao caso. Na delegacia, os bandidos foram presos, Marcela também, e Vitor, surpreendendo a todos, ficou em uma sala reservada da delegacia. Pediu para falar com uma pessoa apenas. Regina. Quando sua esposa olhou nos seus olhos, parecia não acreditar no que via. O marido que ela enterrou, pelo qual se martirizou durante meses, estava ali, na sua frente, em pedaços. Vitor não teve tempo e fôlego para pronunciar uma sílaba sequer, então Regina desabafou:
- Vitor? Vitor? Que brincadeira é essa? Vitor, eu... Eu... Eu te enterrei, eu joguei flores sobre o seu caixão, eu nunca deixei de visitar seu túmulo... E você aqui? Como, meu Deus, como? Isso é surreal... Como você pôde... Comigo, com sua filha? Como, Vitor?
- Eu não sei o que dizer, Regina, nem sei como te explicar tudo isso...
- Mas explica, Vitor! Explica! Meu Deus do céu, por quê? Por quê?
- Eu não agüentava mais a vida que eu levava, eu sofria, nosso casamento não tinha mais jeito, a minha vida não tinha.
Regina, com raiva e ódio, respondeu:
- Mas bastava o divórcio, Vitor! Bastava você assinar um papel, mas não! Você preferiu destruir vidas inocentes por causa da sua fraqueza, Vitor! Isso que você é, um fraco! Fraco de alma, de espírito, de coração! Egoísta... Mas me responde uma coisa... Como? Você não fez isso sozinho... Quem foi? Era ela? Fala, Vitor!!!
Ela, no caso, foi o motivo da última briga entre o casal, no dia dos 15 anos de Marcela, que causou todo esse transtorno. Regina tinha encontrado um e-mail de outra mulher... Suspeito... Era de Fernanda, sua melhor amiga (que a avisou do desastre que “matou” Vitor).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

15 anos - parte II

O dia inteiro foi agitado para Marcela. A debutante nem conseguiu dormir na noite anterior de tanta ansiedade, que só fazia aumentar nas horas que antecediam o Baile. Entretanto uma coisa a confortava, a certeza de que tudo isso tinha servido de alguma coisa. Cabelo, maquiagem, vestido, perfeição. Para Marcela, nada poderia dar errado. Pena que foi diferente para seus pais.
Regina e Vitor estavam entrando nos rumos, parecia que a energia que aquela festa tinha tomado se transformava, finalmente, em afeto, em carinho, no amor que nunca deixaram de sentir um pelo outro. Regina estava radiante, pois nunca desistiu de seu amor por Vitor, lutando com unhas, dentes e coração pela integridade da sua família e ele, com aparência menos feliz, que chegava a soar, por instantes, um certo fingimento forçado, não expressava nada contrário. Fazia sua esposa feliz. Mas naquele dia, justamente naquele dia, o velho hábito voltou a aparecer. O casal brigou feio em casa, como se o passado recente pouco importasse. Ofensas, acusações, em graus elevados, que infelizmente Marcela flagrou. Ao chegar em casa, com sua beleza ressaltada por uma maquiagem inutilmente perfeita, estranhou os gritos. Foi quando se aproximou da porta e viu seus pais discutindo ferozmente, como antes e, logo depois, saindo transtornado de casa em direção ao carro. Marcela tentou evitar que ele dirigisse como estava, mas foi em vão.
Regina e Marcela então seguiram Vitor no carro da mãe, como se pudessem alcançá-lo. Vitor corria, acelerava, voava, até desaparecer da visão de sua filha e de sua esposa. Passaram algumas horas, eram quase 6 da tarde, quando Fernanda, a melhor amiga de Regina, trouxe a notícia que iria mudar o rumo dessa história. O carro de Vitor se transformou em uma bola de fogo e ferro, em um abismo menor do que aquele que a notícia estava abrindo nos corações de Marcela e de Regina. Estava morto. Pouco tempo depois a polícia do local confirmou o acidente fatídico. Era o fim de uma vida, o fim das esperanças de Regina, o fim dos sonhos de Marcela, que só queria ver sua família junta novamente. No dia dos seus 15 anos, Marcela perdia mais que seu pai. Perdia tudo o que chamava de futuro.
Dali em diante, a jovem doce e sensível deu lugar a um ser estranho, sombrio e cada vez mais distante. Passou a culpar a sua mãe pela morte do pai, acusando-a de ter estragado tudo e de nunca ter amado de verdade Vitor. Revolta de uma criança que tinha seu chão tirado de uma hora para outra e não tinha onde se apoiar. Passou a se afastar da escola, suas notas caíram. Suas amigas passaram a ser desconhecidas, desconheciam Marcela, a boneca que caiu de sua bolha no mundo cruel da realidade. Os meses foram passando... Um ano se passou... E foi no meio desse furacão incessante que conheceu Tony. Marcela, em uma de suas aventuras sem lei, esbarrou nesse homem, 19 anos, que passou a lhe dar o apoio que procurava. Mas Tony não fazia isso por bondade. Fazia por interesse. Criminoso, com roubos, seqüestros e homicídios em sua ficha, viu em Marcela uma parceira fiel nos seus planos, pois ela se jogou de cabeça sem pestanejar.
Então, junto com sua quadrilha, Tony conquistou a confiança de Marcela, que entrou no mundo quase sem volta do crime, empolgada, porque via que suas necessidades de afeto e atenção se supriam com adrenalina e a sensação de que era importante para alguém. Marcela, então, deu uma idéia que de pronto foi aceita pelos seus parceiros: um grande assalto à sua ex-mansão. Ela não queria nenhum bem que um dia dela foi, seu único objetivo era o de se vingar da mãe, que destruiu sua vida. Arquitetaram o plano, com minúcias, armando um bote perfeito. No dia, a tensão de Marcela se misturava com um remorso, que não conseguia ser um décimo da sede de vingança que lhe embebia os olhos com sangue. Era chegada a hora.
Chegaram em frente à casa no horário combinado, tudo ia muito bem. Até que eles avistaram uma pessoa rondando o lugar. Vestia preto, feições masculinas, coberto com um capuz, parecia esperar alguém, alguma reação, alguém na janela. Tony pensou rápido e determinou que aquele homem não iria os atrapalhar. Propôs que ele fosse levado dali, e Marcela concordou no ato. O homem ficou cercando a mansão o tempo suficiente para Tony preparar o sequestro. Os cinco, incluindo Marcela, capturaram aquele homem e, sem deixar pistas, partiram até um galpão abandonado. Lá o refém foi deixado, amarrado, ferido, transtornado. Foi quando Marcela, com voz altiva, ordenou, curiosa, que a pessoa a sua frente mostrasse seu rosto, mas o refém se negava. Sem paciência, Marcela foi até ele, tirou seu capuz e... Era Vitor. Seu pai.