quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Voo cego

A TAM Linhas Aéreas s.a., no último dia 23 de setembro, cometeu uma imensa grosseria. A TAM vetou um vídeo, produzido pelo Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, com apoio do Governo do Estado, sobre o maior evento do calendário dos paraenses, o Círio de Nazaré, que por contrato – no valor de R$ 136 mil – deveria ser exibido nas aeronaves da companhia durante o mês de outubro. O motivo: o vídeo continha, segundo a empresa, forte teor religioso.
O Círio não é somente um evento religioso. Trata-se de uma questão, acima de tudo, CULTURAL. A empresa TAM, ao praticar este ato de violência cultural, ofende todo um povo devoto, que respeita e homenageia Nossa Senhora de Nazaré. Com isso, fica clara a postura ignorante da companhia, revelando um desconhecimento – até mesmo um certo desprezo – da importância que o Círio possui para o povo paraense. O Círio de Nazaré, desde 2003, é considerado PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL do Brasil, pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A TAM desprezou um Patrimônio Nacional. Pura falta de respeito e de informação.
Em reportagem vinculada no jornal O Liberal de 4 de outubro de 2009, a TAM tentou amenizar o caso: “Respeitamos todas as religiões, mas preferimos adotar uma postura neutra sobre o tema, uma vez que transportamos passageiros de diversas origens e crenças.” E qual seria o prejuízo de mostrar um símbolo da nossa cultura a pessoas de diferentes crenças? Exaltamos o Círio como manifestação cultural de Belém do Pará, assim como a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim representa Salvador, assim como o Cristo Redentor simboliza o Rio de Janeiro. Sim, ainda existe o velho e imbecil preconceito dos sulistas em relação a nós, amazônidas!
Somente quem vive o Segundo Domingo de Outubro em Belém pode descrever a força e a importância daquele momento. Desde setembro já se sente o clima da Festa pela cidade. Gastronomia, cultura, música, dança, turismo – que, por sinal, enriquece a própria TAM. Muito além do “forte apelo religioso” alegado pela companhia. Os dias que antecedem as procissões, a Romaria Fluvial, a Trasladação, o domingo do Círio. Como o domingo do Círio é mágico! Dois milhões de pessoas, mais do que a população total da cidade, se unem, milhares desses em uma corda, puxando com o máximo de suas forças uma berlinda, levando uma imagem de madeira, cerca de trinta centímetros, de um canto a outro da cidade, sob um sol tipicamente equatorial. Ali, por alguns momentos, desaparecem todas as estratificações. Não existem pobres ou ricos, negros ou brancos, homens ou mulheres. Ali, todos são o povo. Naquele esforço, naquela multidão, se materializa o mais humano dos sentimentos: a solidariedade. Pessoas que nunca se viram – e que talvez nunca mais se vejam -, por um momento, viram irmãs, unidas pela emoção, unidas pelo sofrimento. Unidas pela FÉ. E foi isto que a TAM vetou.
Porém somos maiores, somos mais fortes que qualquer empresa. Tal desrespeito não irá, de maneira alguma, abalar a nossa devoção, a nossa fé. Não diminuirá em nada a importância do Círio em nossas vidas. Muito pelo contrário. Servirá como estímulo extra para mostrarmos, cada vez mais, ao Brasil e ao mundo, o que o Círio de Nazaré é capaz de proporcionar a quem o vive.

Feliz Círio.

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